A vida nos ensina sempre
Depera Gelles

Eu estava começando em um novo emprego, o qual me obrigava uma sofrida caminhada de dez minutos com o paletó na mão, mas no final tudo compensava, eu ia sentado, no ônibus fretado pela empresa, curtindo o ar condicionado que secava meu suor.

No primeiro dia enquanto esperava meu transporte, observei um senhor de idade avançada, ele abria o portão da casa, pegava uma velha cadeira amarelada de plástico, colocava bem na frente do portão, acendia o cachimbo, dava uma tragada, olhava para mim; levemente sinalizava um cumprimento levando o cachimbo para cima, e depois dava uma gargalhada solitária. E assim, passaram 04 meses, todo dia a mesma coisa, eu brigando com meu suor, e o velho no seu ritual matinal.

Porém, um dia, ele não apareceu, e no dia seguinte também não! E não apareceu por uma semana, então, eu nem sei porque, corri até a casa e toquei a campainha, a empregada me olhou com uma cara...
- o que o senhor quer tão cedo?
- Desculpe o horário, é que ..., sabe aquele senhor que senta aqui?
- Ah! O “seu” Domingos, coitadinho...
- Morreu?
- Pior, foi mandado pra um asilo pela filha e pelo genro!
- Você sabe onde fica o asilo?

E ela me deu o endereço, passei a visitá-lo quinzenalmente, confesso que ele me deixava pra cima, seu astral era tudo de bom. Conversávamos sobre tudo, passado, presente, futuro, e um dia eu criei coragem e perguntei:
- Por que o senhor sempre fazia aquele ritual?

Ele começou a rir e me explicou, que embora morasse com a filha nunca se sentira tão só em toda sua vida, e sabia que uma vez no asilo talvez ela nem o visitasse, então:
- Eu tragava o cachimbo como uma reverência pela bondade do Pai comigo, erguia o mesmo para cumprimentá-lo, e sorria porque algo dentro de mim dizia que você era tão curioso que viria me ver para saber o por que disso tudo, e assim, eu teria um novo amigo, e tenho. Fiquei feliz por estar ali desfrutando de sua sabedoria, nossa amizade durou anos, e eu continuei solteiro, porque se é para ficar sozinho no fim, quero ficar sozinho no começo, e dividir meu tempo com pessoas que gostem de me ouvir, para quem sabe um dia eu poder ser ouvido.